Categoria chegou a 757,4 milhões de litros produzidos em 2024; setor de bebidas entra nos meses quentes com El Niño ativo e mudanças no mercado cervejeiro
A geladeira de cerveja do brasileiro está mudando antes mesmo de começar mais um verão.
A produção nacional de cervejas sem álcool ou desalcoolizadas saltou de 118,9 milhões de litros em 2023 para 757,4 milhões em 2024, crescimento de 536,9% em apenas um ano.
Os números são do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv) e foram divulgados pela Firjan em março deste ano. Com esse avanço, as versões sem álcool passaram a representar 4,9% da produção brasileira de cerveja.
É uma transformação importante justamente quando a indústria de bebidas começa a olhar para os meses tradicionalmente mais quentes do calendário.
E 2026 traz uma variável adicional: o El Niño.
Cerveja zero passa dos 750 milhões de litros
A velocidade da expansão ajuda a mostrar como a cerveja sem álcool deixou de ocupar uma pequena parte das prateleiras.
Em apenas um ano, o volume produzido aumentou mais de seis vezes.
Segundo os dados apresentados pela Firjan, foram:
2023: 118,9 milhões de litros
2024: 757,4 milhões de litros
Crescimento: 536,9%
Participação na produção nacional: 4,9%
A Firjan cita dados do Sindicerv e do Anuário da Cerveja 2025 para dimensionar esse movimento.
Há uma distinção importante: produção não é a mesma coisa que consumo ou venda. Portanto, os 757,4 milhões de litros não devem ser apresentados como volume efetivamente comprado pelos brasileiros naquele ano.
Cerveja da Ambev também cresceu no início de 2026
O release enviado ao Onde Beber afirma que “o volume de cerveja no Brasil cresceu 1,2%” no primeiro trimestre de 2026.
O dado exige uma correção.
O aumento de 1,2% se refere ao volume de Cerveja Brasil da Ambev, e não ao mercado brasileiro como um todo.
No balanço oficial do primeiro trimestre, a companhia informou crescimento orgânico de 1,2% nessa operação em comparação com o mesmo período de 2025.
O volume chegou a 23,43 milhões de hectolitros, estabelecendo, segundo a própria empresa, um recorde para um primeiro trimestre.
A receita líquida de Cerveja Brasil cresceu 9,6% no período.
Isso permite dizer que uma das maiores fabricantes do país começou 2026 vendendo mais cerveja. Não permite concluir, isoladamente, que todo o mercado brasileiro cresceu 1,2%.
E o calor?
É aqui que a história fica menos simples.
O Brasil está sob influência do El Niño, fenômeno capaz de alterar significativamente os padrões de chuva e temperatura, mas seus efeitos não são iguais em todas as regiões.
O boletim oficial divulgado pelo INMET e outros órgãos federais em julho apontou manutenção e intensificação do fenômeno durante o segundo semestre, com elevada probabilidade de que alcance intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão.
Outro boletim oficial aponta probabilidade superior a 90% de permanência do El Niño até pelo menos o início de 2027.
El Niño não significa simplesmente “Brasil mais quente”
Essa ressalva é importante porque o release tenta estabelecer uma linha relativamente direta entre temperaturas elevadas e aumento da pressão sobre as fábricas de bebidas.
A realidade climática é mais complexa.
Os órgãos oficiais projetam efeitos distintos conforme a região. O El Niño tende a favorecer volumes de chuva acima da média no Sul e déficit de precipitação em áreas da Amazônia e do centro-norte do país.
Na Região Sul, por exemplo, as projeções também indicam temperaturas acima da média especialmente durante inverno e primavera, além da possibilidade de redução da intensidade ou duração de ondas de frio.
Portanto, não é correto transformar a previsão em “o Brasil terá um verão mais quente e beberá mais cerveja”.
Clima influencia o mercado de bebidas, mas preço, renda, calendário, turismo, eventos, disponibilidade e comportamento do consumidor também interferem na demanda.
O que muda dentro das fábricas
É nesse cenário que fabricantes de equipamentos industriais tentam antecipar outra questão: a capacidade das linhas de produção para responder a variações de demanda.
A Hercules Energia em Movimento, empresa responsável pelo estudo encaminhado ao Onde Beber, defende que fabricantes revisem motores, sistemas de transmissão e equipamentos de controle antes dos períodos de maior utilização.
A recomendação faz sentido dentro da lógica industrial: uma fábrica que opera em ritmo elevado tem menos margem para paradas inesperadas.
Mas é importante separar essa recomendação comercial da empresa dos indicadores do mercado cervejeiro.
Os dados mostram que a indústria está mudando, especialmente pelo avanço acelerado das versões sem álcool. Já a intensidade da demanda no próximo verão dependerá de uma combinação bem mais ampla de fatores.
Uma coisa, entretanto, já aconteceu: em apenas um ano, o Brasil acrescentou mais de 638 milhões de litros à produção anual de cervejas sem álcool e desalcoolizadas.
E isso muda consideravelmente o que as fábricas precisam estar preparadas para colocar nas prateleiras.

