Amburana, jequitibá ou ipê-roxo: entenda o que a madeira faz com a cachaça

No Dia Nacional da Cachaça, rótulos produzidos em Torrinha mostram como diferentes madeiras podem mudar cor, aroma e sabor do destilado brasileiro

Duas cachaças produzidas a partir da mesma matéria-prima podem chegar ao copo com perfis completamente diferentes.

Um dos motivos está na madeira.

Amburana, jequitibá, castanheira, bálsamo e ipê-roxo estão entre as espécies usadas na produção brasileira e podem interferir de maneiras distintas na cor, no aroma, no sabor e na percepção de textura do destilado.

No Dia Nacional da Cachaça, celebrado em 13 de setembro, esse universo também ajuda a mostrar por que entender um rótulo pode dizer muito sobre o que aparecerá no copo.

A Inspirits, divisão de destilados do Grupo La Pastina, reuniu exemplos das marcas Alzira e Cê, produzidas pela Destilaria Octaviano Della Colletta, em Torrinha, no interior paulista.

Amburana: uma das assinaturas mais fáceis de reconhecer

A amburana é uma das madeiras brasileiras mais conhecidas entre consumidores de cachaça.

Ela costuma imprimir um perfil aromático mais evidente, frequentemente associado a notas doces e de especiarias.

Alzira passa por amburana e jequitibá. Informações técnicas disponíveis sobre o rótulo indicam passagem por amburana e jequitibá-rosa e teor alcoólico de 41%. 

No material da marca, aparecem referências a canela, baunilha e frutas secas.

O jequitibá, por sua vez, tende a interferir menos no destilado, ajudando a preservar características da própria cachaça.

Quando a cachaça mistura mais de uma madeira

A linha Cê trabalha justamente com a combinação de diferentes espécies.

Cê Double Wood reúne carvalho americano e jequitibá-rosa.

Já a Cê Triple Wood combina:

  • castanheira
  • carvalho francês
  • carvalho americano

A lógica é semelhante à de outros destilados que passam por diferentes barris: cada madeira acrescenta características próprias e o produtor busca equilíbrio entre elas.

Uma cachaça envelhecida cinco anos em ipê-roxo

O exemplo mais incomum da linha é a Cê Ipê Roxo.

Segundo a ficha disponível na World Wine, o destilado permaneceu cinco anos em um barril virgem de ipê-roxo.

A bebida tem 43% de graduação alcoólica e apresenta coloração âmbar com nuances avermelhadas, além de notas descritas como florais, mel, madeira e frutas secas. 

O lote resultou em 240 garrafas numeradas.

Mais do que a raridade, o exemplo mostra uma das particularidades da cachaça brasileira: a possibilidade de trabalhar com espécies de madeira que não aparecem com tanta frequência em outras grandes categorias mundiais de destilados.

O que significa “Premium” em uma cachaça?

Aqui existe uma diferença importante entre linguagem de marketing e classificação regulamentada.

Segundo orientação do Ministério da Agricultura e Pecuária, a expressão Premium pode aparecer em cachaças envelhecidas integralmente por pelo menos um ano.

Já Extrapremium exige que todo o líquido tenha permanecido em envelhecimento por no mínimo três anos

Ou seja, chamar uma cachaça de Premium no rótulo não deveria funcionar apenas como adjetivo de qualidade.

É uma classificação associada ao processo de envelhecimento.

E o termo “envelhecida”?

Também há diferença.

A legislação admite como cachaça envelhecida aquela em que pelo menos 50% do volume tenha passado por madeira por período não inferior a um ano, respeitando as condições previstas para os recipientes.

Já Premium exige 100% do líquido envelhecido por pelo menos um ano. 

Essa distinção é uma das informações mais úteis para quem quer começar a ler melhor os rótulos.

Como perceber a madeira no copo

Não existe uma regra absoluta de que determinada madeira sempre produzirá exatamente o mesmo aroma.

Espécie, tamanho do recipiente, idade do barril, tempo de contato, tosta e condições de armazenamento também influenciam o resultado.

Ainda assim, provar cachaças lado a lado pode deixar algumas diferenças bastante perceptíveis.

Uma sequência interessante é começar pelas de influência mais discreta e avançar para perfis mais intensos.

Na primeira prova, vale experimentar sem gelo para observar:

Cor: palha, dourado, âmbar ou tons mais avermelhados.

Aroma: frutas, especiarias, baunilha, castanhas, flores ou madeira.

Paladar: doçura percebida, acidez, secura, amargor e persistência.

Depois, o gelo ou a coquetelaria podem mostrar outro lado do destilado.

Drink com ipê-roxo e hibisco

O material da Inspirits sugere ainda um coquetel simples para a Cê Ipê Roxo.

FloresCê

Ingredientes

50 ml de Cê Ipê Roxo
25 ml de suco de limão-taiti
100 ml de chá de hibisco gelado
1 colher de sopa de açúcar
Gelo
Flores comestíveis para finalizar

Preparo

Em um copo longo com gelo, coloque a cachaça, o limão e o chá de hibisco adoçado. Misture e finalize com flores comestíveis.

A mesma cachaça também pode ser bebida pura ou usada em releituras de clássicos, como um Negroni substituindo o gin.

Onde encontrar

Os rótulos citados no material são:

Alzira
750 ml
41% vol.

Cê Double Wood
700 ml
42% vol.

Cê Triple Wood
700 ml
43% vol.

Cê Ipê Roxo
700 ml
43% vol.
Edição numerada de 240 garrafas

Segundo a empresa, estão disponíveis nas lojas World Wine e La Pastina.

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