Cachaça de alambique é reconhecida como patrimônio cultural de Minas Gerais

Os modos tradicionais de fazer cachaça de alambique foram reconhecidos como patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais nesta quinta-feira, 22 de outubro de 2026. A decisão foi aprovada pelo Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep), durante reunião realizada no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte.

O reconhecimento representa uma medida de valorização e preservação dos conhecimentos associados à produção da bebida, uma tradição profundamente ligada à história econômica, social e cultural mineira.

Na mesma reunião, o conselho também aprovou o registro das Expressões do Samba em Minas Gerais como patrimônio cultural imaterial e o tombamento estadual da Casa de Dona Beja, localizada em Araxá, no Alto Paranaíba.

As decisões foram conduzidas no âmbito dos processos de reconhecimento do patrimônio cultural do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG).

O que significa reconhecer a cachaça de alambique como patrimônio?

O reconhecimento não se limita ao produto final encontrado nas garrafas.

O registro contempla os modos tradicionais de fazer cachaça de alambique, ou seja, os conhecimentos, as técnicas e as práticas envolvidos na produção e transmitidos entre famílias e comunidades ao longo das gerações.

A proteção como patrimônio imaterial permite orientar ações de documentação, valorização e preservação desses saberes.

Isso não significa, entretanto, que toda cachaça produzida em Minas Gerais passe automaticamente a receber uma certificação especial, incentivos financeiros ou benefícios comerciais.

As exigências legais para produção e comercialização da bebida também permanecem em vigor.

Minas Gerais produz 13,5 milhões de litros de cachaça de alambique por ano

A dimensão da produção mineira ajuda a compreender a importância econômica e cultural do reconhecimento.

Segundo os dados apresentados durante o anúncio, Minas Gerais lidera a produção nacional de cachaça de alambique, com volume estimado em 13,5 milhões de litros por ano.

De acordo com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), o estado possui 630 alambiques registrados.

Além de representar uma atividade econômica, a produção de cachaça está associada à preservação de técnicas tradicionais e à continuidade de conhecimentos transmitidos entre diferentes gerações.

Para José Lúcio, presidente da Expocachaça, evento dedicado ao setor, o reconhecimento reforça o valor histórico da bebida.

“A bebida tem papel fundamental na história mineira. A produção aqui é forte. Sendo assim, deve ser valorizada”, afirmou.

Segundo ele, a Expocachaça contribui para divulgar processos produtivos, técnicas de maturação e a trajetória de produtores de diferentes portes.

“Criei a Expocachaça para atender e dar força para um nicho que não estava sendo atendido. Dessa forma, desde então, a relação do mercado com a cachaça mudou”, declarou.

Uma tradição preservada por famílias produtoras

O registro como patrimônio cultural também coloca em evidência o papel das famílias que mantêm a produção de cachaça de alambique ao longo de décadas.

Durante o anúncio, Sara Regina Santana Santos, integrante de uma família responsável pela produção da cachaça Guaraciaba há 62 anos, destacou a importância da medida para dar visibilidade aos produtores e aproximar as novas gerações dessa tradição.

A preservação dos modos de fazer envolve mais do que a manutenção de equipamentos ou instalações.

Ela depende da transmissão de conhecimentos, do aprendizado prático e da continuidade de técnicas que fazem parte da identidade das comunidades produtoras.

O reconhecimento pelo Conep estabelece uma referência institucional para a valorização desse patrimônio.

Samba mineiro também se torna patrimônio cultural imaterial

Outra decisão aprovada pelo conselho foi o registro das Expressões do Samba em Minas Gerais como patrimônio cultural imaterial.

A manifestação possui forte ligação com a cultura afro-brasileira e está presente em diferentes regiões do estado.

Segundo dados divulgados pelo governo mineiro, 246 grupos de samba estão cadastrados em Minas Gerais.

A solicitação que deu origem ao estudo de reconhecimento partiu do coletivo de sambistas Mestre Conga.

Um dos coordenadores do grupo, Raimundo Nonato da Silva, comemorou a decisão e destacou a importância do reconhecimento para artistas e comunidades que mantiveram a tradição mesmo diante de episódios históricos de discriminação e repressão.

Assim como no caso da cachaça, o registro busca preservar uma manifestação cultural viva, transmitida e transformada ao longo do tempo.

Casa de Dona Beja, em Araxá, recebe tombamento estadual

A terceira medida aprovada pelo Conep foi o tombamento da Casa de Dona Beja, também conhecida como Pensão Tormim, em Araxá, no Alto Paranaíba.

Construído entre as décadas de 1820 e 1830, o imóvel preserva características da arquitetura urbana do século XIX.

A edificação está associada à trajetória de Anna Jacintha de São José, conhecida como Dona Beja, personagem histórica que exerceu influência social, econômica e política na região.

Sua história também está ligada a acontecimentos políticos do século XIX, incluindo a Revolução Liberal de 1842.

Diferentemente do registro de patrimônio imaterial, o tombamento estabelece proteção sobre um bem físico.

Com a medida, a Casa de Dona Beja passa a contar com regras estaduais de conservação destinadas a preservar suas características históricas e arquitetônicas.

Segundo o Iepha-MG, imóveis tombados não podem ser demolidos, destruídos ou sofrer intervenções sem autorização prévia do órgão responsável.

Reconhecimento valoriza a identidade cultural mineira

As três decisões aprovadas em 22 de outubro representam formas distintas de proteção do patrimônio cultural.

Enquanto os registros do samba e dos modos de fazer cachaça reconhecem práticas e conhecimentos transmitidos entre gerações, o tombamento da Casa de Dona Beja busca conservar um imóvel de relevância histórica.

No caso da cachaça, o reconhecimento reforça a importância de uma bebida que atravessa a história de Minas Gerais e permanece ligada à identidade de suas comunidades produtoras.

Mais do que reconhecer um destilado, a decisão preserva a memória e os saberes envolvidos em sua produção.

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