O whisky brasileiro começa a chamar atenção por uma característica que vai além da origem: o uso de madeiras nacionais na maturação e na finalização de destilados. Espécies como amburana, bálsamo e pau-brasil estão entre as opções exploradas por produtores interessados em desenvolver bebidas com perfis sensoriais próprios.
Uma das empresas que investem nesse caminho é a Lamas Destilaria, de Minas Gerais, que combina técnicas tradicionais de produção de whisky com a utilização de diferentes tipos de barris.
A fabricante teve três de seus single malts destacados na edição 2025-2026 da Jim Murray’s Whisky Bible, publicação especializada que reúne avaliações de whiskies de diferentes países.
O reconhecimento acontece em um mercado no qual consumidores de destilados premium vêm demonstrando maior interesse por procedência, processos produtivos e características que diferenciam um rótulo de outro.
O consumidor está bebendo menos ou escolhendo melhor?
A discussão sobre o consumo de bebidas alcoólicas passa por mudanças de comportamento que nem sempre seguem a mesma direção em todos os mercados.
Segundo análise da consultoria internacional IWSR, citada em relatório divulgado em 2026, o consumo global de bebidas alcoólicas recuou em 2025. Ao mesmo tempo, categorias premium continuam encontrando oportunidades em mercados emergentes, incluindo o Brasil.
A consultoria também aponta uma mudança na maneira como os consumidores avaliam produtos de maior valor. Em vez de considerar apenas preço ou prestígio, parte do público procura características e experiências que justifiquem a compra.
Para Luciana Lamas, CMO da Lamas Destilaria, essa transformação favorece produtores que investem em identidade e qualidade.
“A população não está bebendo menos, está bebendo melhor. Existe um consumidor cada vez mais interessado em conhecer a origem da bebida, os processos de produção e o que diferencia um rótulo de outro”, afirma.
A declaração representa a percepção da executiva sobre o mercado. Os dados apresentados no comunicado, por sua vez, não permitem afirmar que toda a população brasileira esteja consumindo menos álcool ou migrando para bebidas premium.
O que as madeiras brasileiras acrescentam ao whisky?
A madeira desempenha um papel importante no desenvolvimento do whisky durante o período de maturação.
O contato do destilado com o barril pode influenciar sua cor, seus aromas, sua textura e a percepção de diferentes sabores.
Tradicionalmente, a produção de whisky utiliza barris de carvalho, muitas vezes provenientes de outras bebidas, como bourbon e vinho.
A Lamas Destilaria também trabalha com carvalho, mas explora espécies brasileiras em processos de maturação e finalização.
Entre as madeiras citadas pela empresa estão amburana, bálsamo, putumuju, angico, sassafrás e pau-brasil.
Cada uma apresenta composição e características próprias, capazes de influenciar o resultado da bebida. O perfil final depende também do tipo de barril, do tempo de contato com a madeira e das características do destilado.
“Nosso maior investimento está na madeira, porque é dentro do barril que grande parte da personalidade do whisky se desenvolve”, explica Luciana Lamas.
Segundo a executiva, explorar espécies nacionais permite criar bebidas que preservam referências da tradição do single malt, mas apresentam características associadas à produção brasileira.
Três whiskies brasileiros recebem notas acima de 94 pontos
Na edição 2025-2026 da Jim Murray’s Whisky Bible, três rótulos da Lamas Destilaria receberam avaliações superiores a 94 pontos.
O Brasilides Peat Signature alcançou 95,5 pontos, a maior nota entre os três produtos mencionados no comunicado.
O Bicentennial Alliance recebeu 94,5 pontos, enquanto o Founder’s Selection foi avaliado com 94 pontos.
As pontuações foram atribuídas na publicação especializada e representam a avaliação de Jim Murray. Não equivalem, por si só, à conquista de medalhas em uma competição internacional.
O resultado, no entanto, dá visibilidade aos produtos brasileiros entre leitores e apreciadores que acompanham avaliações de whiskies de diferentes origens.
Bicentennial Alliance combina carvalho americano e pau-brasil
Entre os rótulos citados, o Bicentennial Alliance exemplifica a estratégia de utilizar madeiras diferentes em etapas da produção.
O whisky passa por maturação em carvalho americano e recebe finalização em pau-brasil.
A finalização consiste em transferir o destilado para outro barril durante uma etapa posterior, permitindo que a madeira acrescente características ao perfil sensorial desenvolvido na maturação inicial.
No caso do Bicentennial Alliance, essa combinação faz parte da identidade proposta pela Lamas Destilaria.
O rótulo recebeu 94,5 pontos na avaliação de Jim Murray.
O comunicado não informa quanto tempo o whisky permanece em cada tipo de barril nem detalha as notas sensoriais atribuídas especificamente ao pau-brasil.
Também não apresenta informações sobre a origem legal e o manejo das madeiras utilizadas, pontos relevantes quando se trata de espécies nativas.
O espaço dos destilados brasileiros no segmento premium
A presença de whiskies nacionais em publicações internacionais contribui para ampliar a discussão sobre a produção brasileira de destilados.
Historicamente, o consumidor de whisky convive com referências consolidadas de países como Escócia, Estados Unidos e Japão.
Produtores brasileiros procuram desenvolver uma identidade própria, seja pela escolha de matérias-primas, pelas condições de produção ou pelo uso de madeiras locais.
Para Luciana Lamas, esse movimento também pode modificar a percepção de consumidores que associam a qualidade dos destilados principalmente à origem estrangeira.
“Quem escolhe um destilado premium não está olhando apenas para o preço ou para a marca. Quer descobrir sabores, entender a história daquela bebida e viver uma experiência que faça sentido”, afirma.
No caso da Lamas, a combinação entre produção de single malt, seleção de barris e experimentação com madeiras brasileiras se tornou uma das características de seu portfólio.
Os resultados publicados na Whisky Bible oferecem um exemplo de reconhecimento especializado, embora não sejam suficientes para medir o crescimento das vendas ou da participação de mercado do whisky brasileiro.
A expansão desse segmento dependerá também de fatores como distribuição, preço, disponibilidade e interesse dos consumidores em conhecer produtos nacionais.

