Primeiro dia da Brasil Brau destaca maturidade do setor cervejeiro e alerta para impactos da Reforma Tributária

A abertura oficial da Brasil Brau 2026 reforçou o momento de transformação vivido pelo mercado cervejeiro brasileiro. Ao mesmo tempo em que o setor demonstra amadurecimento, expansão regional e diversificação de produtos, lideranças da indústria também acenderam o alerta para os impactos da Reforma Tributária e para a necessidade urgente de eficiência operacional.

Durante a cerimônia de abertura, Tatiana Zaccaro, diretora de negócios da GL events, anunciou que o evento será ampliado a partir de 2028 e passará a se chamar Brasil Brau & Beverage, incorporando também os mercados de bebidas alcoólicas e não alcoólicas.

“A evolução da Brasil Brau reflete um movimento natural do próprio mercado, marcado pela convergência tecnológica, geracional e comercial entre diferentes segmentos do setor de bebidas”, afirmou Zaccaro.

Em sua 20ª edição, a feira reforça a força do mercado nacional, que hoje possui 56.170 marcas ativas e 1.954 cervejarias registradas em 794 municípios brasileiros.

Mercado cresce, mas setor teme pressão fiscal

Os dados apresentados durante o evento são do Anuário da Cerveja, divulgado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Segundo Eduardo Marcuso, consultor técnico do ministério, o mercado segue avançando em nichos específicos, especialmente nas categorias sem glúten e baixo teor alcoólico.

O levantamento aponta crescimento de 417% na produção de cervejas sem glúten e recorde nas exportações brasileiras para 77 países, com valorização de 13% no preço médio dos produtos nacionais.

Apesar do cenário positivo, a principal preocupação da abertura foi o avanço da Reforma Tributária e do futuro Imposto Seletivo sobre bebidas alcoólicas.

“O maior gargalo da indústria no Brasil hoje não é insumo, nem distribuição, nem qualidade, mas sim o tributário. O brasileiro não aguenta mais pagar imposto”, afirmou Marcio Maciel, presidente do Sindicerv.

Gilberto Tarantino, presidente da Abracerva, destacou que as entidades seguem mobilizadas para garantir tratamento tributário diferenciado aos pequenos produtores.

“Conseguimos colocar no texto da reforma que os pequenos produtores de cerveja, vinho e destilados terão tratamento tributário diferenciado. Agora precisamos trabalhar juntos para garantir isso”, declarou.

Mercado americano vira alerta para o Brasil

Os desafios de gestão e profissionalização também dominaram os debates internacionais do primeiro dia.

Em painel comandado por Bob Pease, ex-presidente da Brewers Association dos Estados Unidos, o especialista mostrou como o mercado americano enfrenta atualmente um período de desaceleração, após décadas de crescimento contínuo.

Segundo Pease, os Estados Unidos possuem hoje cerca de 9.500 cervejarias artesanais e registraram, pelo terceiro ano consecutivo, mais fechamentos do que aberturas.

O executivo também apresentou o conceito da geração “Omnibibulous”, perfil de consumidor que alterna entre cerveja, destilados e coquetéis em uma mesma ocasião de consumo.

“A cerveja artesanal veio para ficar, mas o crescimento linear de 40 anos acabou. Quem está ganhando o jogo hoje já entendeu que estamos no mercado da hospitalidade e do controle rígido de custos por litro”, afirmou.

Consumidor muda e mercado sem álcool avança

O comportamento do consumidor também esteve no centro das discussões do CBCTalks, espaço de conteúdo da feira.

Um estudo apresentado pela Globo mapeou mudanças importantes nas gerações X e Y, especialmente relacionadas à moderação de consumo, bem-estar e busca por produtos de maior valor agregado.

Já nas palestras técnicas, especialistas discutiram o crescimento acelerado das cervejas sem álcool e os desafios sanitários da categoria.

David Figueira, CEO da Sim! Cerveja sem álcool, alertou para os cuidados microbiológicos necessários na produção.

“Não existe cerveja sem álcool sem pasteurização. Comercialmente, o mercado precisa entender que chope sem álcool representa um risco microbiológico alto”, afirmou.

Gestão, fluxo de caixa e precificação entram no centro do debate

A transição das cervejarias artesanais para modelos mais escaláveis também apareceu entre os principais temas do evento.

Em painel mediado por Tania Miyake, representantes das cervejarias Louvada, Germânia e Stier discutiram desafios ligados à distribuição, fluxo de caixa, precificação e profissionalização da gestão.

Entre os temas abordados estiveram estratégias de interiorização fabril, inovação em embalagens e equilíbrio entre posicionamento de marca e competitividade de preço.

“A qualidade técnica hoje é uma obrigação e o equilíbrio de eficiência operacional exige uma busca constante pela precificação adequada”, destacou Wadi Nussallah, presidente da Cervejaria Germânia.

A Brasil Brau 2026 segue até o dia 11 de junho no São Paulo Expo, em São Paulo.

TAGGED:
Compartilhe este artigo