Como o sabor da Amazônia inspira a nova coquetelaria brasileira

A coquetelaria brasileira vive um momento de expansão estética e sensorial puxado por um território imenso e ainda pouco explorado: a Amazônia. Do jambu ao açaí, da castanha-do-pará às especiarias locais, um conjunto de empresas e startups vem transformando ingredientes nativos em bebidas que carregam identidade, pesquisa e força cultural. São histórias que combinam ciência, tradição, criatividade e impacto econômico, ajudando a reposicionar a bioeconomia amazônica dentro do universo das bebidas.

AMZ Tropical: jambu e castanha na rota internacional

A trajetória da AMZ Tropical começa em Belém, durante a pandemia, quando a ideia de montar uma destilaria de cachaça deu lugar a uma aposta ousada: levar o jambu para dentro de um gin. O resultado não só consolidou a marca em bares e supermercados como abriu espaço para uma linha que inclui produtos como o gin de castanha-do-pará e a Jambu Tônica, disponível em lata de alumínio.

“Queríamos levar os sabores da floresta para dentro da garrafa. E fazer isso de forma autêntica, com insumos que só a Amazônia pode oferecer”, resume Leandro Daher, fundador da marca.
https://www.amztropical.com.br

Com sede no Pará e operação também em São Paulo e Miami, a empresa inaugura um momento de expansão. O bar de experiência recém-aberto no Mercado de São Brás, em Belém, reforça a ideia de que vender bebida é só uma parte do negócio. “Mais do que vender bebidas, queremos criar uma plataforma de valorização da Amazônia, com impacto positivo para produtores locais e para a cadeia da bioeconomia”, afirma Daher.

Hilary Gin: três mulheres e a floresta na taça

Hilary Gin, criada em Manaus por três empreendedoras, segue uma linha complementar. A marca aposta em botânicos amazônicos pouco explorados, como puxuri, cumaru, jambu, camu-camu e cupuaçu, fugindo do óbvio para apresentar um gin premium que traduz a região de forma elegante.
https://www.instagram.com/hilarygin

“Queríamos fugir dos ingredientes já consagrados, como açaí e guaraná, e abrir espaço para outras riquezas da floresta”, explica Raquel Omena, uma das fundadoras.

O London Dry Gin da casa ganhou espaço em bares e empórios de vários estados e impulsionou a criação de kits presente, além de uma linha futura de bebidas prontas. Com crescimento superior a 270% em 2025, a marca planeja ampliar sua presença para novos mercados e investir na instalação de uma fábrica própria em Manaus, fortalecendo a relação com comunidades fornecedoras, como a Associação de Agricultores da Comunidade Uberê. “Cada garrafa é uma celebração da floresta. Nosso propósito é criar bebidas que gerem valor para a Amazônia e ocupem espaço no mercado premium global”, diz Omena.

A²mazônia Sour: biotecnologia paraense no copo

Na fronteira entre ciência e bebida, a A²mazônia Sour nasce de uma pesquisa acadêmica conduzida por Vitor Hugo Auzier Lima na Universidade Federal do Pará. O ponto de partida foi a microbiota presente na casca do açaí, já descrita pela literatura científica. A pesquisa evoluiu para uma cultura-mãe capaz de produzir fermentações únicas, criando um perfil de sabor que não depende de extratos ou essências.
https://www.instagram.com/a2mazoniasour

Lançada em 2025, a Açaideira — uma sour de coloração marcante e acidez equilibrada — já circula em bares e empórios de Belém. A startup, fundada por Vitor em parceria com Patrick Souza de Alencar, trabalha em novas receitas e vislumbra futuras exportações. “Nossa fermentação incorpora microrganismos presentes naturalmente no açaí, o que confere uma assinatura amazônica ao produto, sem uso de extratos ou aromatizantes”, afirma Vitor.

Fazenda Bacuri: tradição familiar e agrofloresta

Fazenda Bacuri, comandada por Hortência Floriano, representa a força da tradição familiar dentro de um modelo agroflorestal que atravessa gerações. A marca se dedica a processar frutas nativas como bacuri, buriti, açaí e cupuaçu em licores e geleias orgânicas, sempre com rastreabilidade de origem.
https://www.instagram.com/fazendadobacuri

“Nosso foco é oferecer o sabor autêntico da floresta, com produtos de alto valor agregado, orgânicos e rastreáveis desde a origem”, afirma Hortência. A fazenda também virou destino turístico, reunindo gastronomia, vivência rural e cultura da bioeconomia.

A floresta como diferencial competitivo

As empresas citadas fazem parte da comunidade da Jornada Amazônia, plataforma da Fundação CERTI que reúne negócios conectados à biodiversidade da região. Desde 2018, a iniciativa já apoiou mais de 300 empreendimentos por meio de programas dedicados a inovação, crescimento e impacto socioambiental.

“O avanço desses negócios mostra que a biodiversidade amazônica pode ser a base de produtos sofisticados, competitivos e conectados a mercados exigentes”, destaca Janice Maciel, Coordenadora Executiva da Jornada Amazônia. “Nosso papel na Jornada é justamente criar as condições para que essas iniciativas saiam do papel, ganhem escala e mostrem que preservar a floresta também é uma estratégia econômica viável.”

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